Depois da tempestade, a ciência!

Publicado por Julio Garcia em 10/05/2020

Desde a infância escuto o famoso adágio: “depois da tempestade vem a bonança”. Ela sempre trouxe a ideia de um alívio, da noção de que depois de grandes crises, assim como ocorre com as tempestades, viriam tempos melhores. Nos atuais tempos de crises sucessivas esta sabedoria popular está sendo duramente questionada. E a responsabilidade é da ciência!

O famoso astrofísico americano Neil deGrasse Tyson teve a oportunidade de apresentar mais uma de suas respostas instigantes em sua recente participação no The Late Show com Stephen Colbelt. Ao ser questionado pelo entrevistador sobre o que ele, como cientista, pensava sobre a pandemia da COVID-19, sua resposta foi:

Neil deGrasse Thyson

“Estamos no meio de um grande experimento planetário. A pergunta é: as pessoas irão ouvir os cientistas, neste caso, em especial, os profissionais da saúde?” E ele complementa: “Me parece que se as pessoas seguirem as recomendações dos cientistas, e não entrarem em pânico, o coronavírus vai acabar desaparecendo, com o mínimo de casos. Estamos no meio deste experimento.”

Neil deGrasse Tyson

Quando a gravidade da situação pandêmica começou a ser conhecida pelas altas autoridades de diferentes governos, as atenções se voltaram aos cientistas. Afinal de contas, o que fazer? Qual a real gravidade deste vírus? Como ele está se espalhando e quais são as medidas que precisam ser tomadas?

A situação não poderia deixar de ser mais irônica, em especial em alguns casos como o do presidente dos EUA, Donald Trump, e do seu mais dedicado discípulo, o presidente do Brasil, Jair Bolsonaro. Ambos tomaram decisões em seus governos que destruíram sistemas e reduziram significativamente a capacidade de produção científica em diversas áreas. Mas diante da catástrofe iminente provocada pelo coronavírus, recorreram imediatamente àqueles que há pouco haviam ridicularizado. Dos males o menor, diriam alguns.

Mas o mais impressionante foi assistir técnicos e cientistas dos governos assumindo a liderança dos programas de combate a pandemia, e serem alçados a verdadeiras estrelas populares, com altíssimo nível de credibilidade perante a população. Tanto o Dr.Anthony Fauci, diretor do Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciaosas dos EUA, quanto o sr.Luiz Henrique Mandetta, ex-ministro da saúde do Brasil, tiveram este protagonismo.

Diferente dos políticos profissionais, os cientistas têm internalizado em suas consciências um princípio ou valor inabalável: a busca pela verdade. Este compromisso com os fatos faz com que as declarações sejam cuidadosamente pensadas, os dados e fatos selecionados, e a descrição da realidade feita com a maior acuidade possível. Em outras palavras, não há espaço para esperanças ou crenças infantis. É o choque da realidade exposto perante o ambiente político dominado pelas palavras de efeito e pela dissimulação.

O sr. Donald Trump conseguiu novamente gerar dúvidas sobre sua sanidade mental e superar sua própria hipocrisia na defesa, sem bases científicas, da hidroxicloroquina, quando veio a público sugerir que injeções de desinfetantepoderiam ser um tratamento mais eficaz para pacientes com a COVID-19. No Brasil, o presidente Jair Bolsonaro também insiste na propagação de curas milagrosas como maneira de minimizar a importância do que insistentemente vem considerando ser uma“gripezinha”.

Diante desta verdadeira tempestade, a promessa da bonança feita por políticos vem sendo desmascarada e afrontada pela ciência. Esta ciência que está apontando para um futuro próximo ainda marcado por dificuldades, mortes e sofrimento em todo o planeta. Mas que ao mesmo tempo faz com que milhares de pesquisadores passem horas, dias, semanas e meses seguidos cumprindo jornadas exaustivas em bancadas de laboratórios e pesquisas de campo. Sacrifícios pessoais, falta de verbas e de reconhecimento, mas um objetivo em mente: encontrar uma vacina, um remédio, um tratamento eficaz contra o coronavírus, o ebola, e tantas outras doenças que afetam a humanidade.

Há muito, na história, adotar a ciência como filosofia pessoal não se tornava tão relevante quanto agora, a ponto de determinar se viveremos ou morreremos.

Portanto, um dos grandes ensinamentos que esta crise pandêmica global poderá deixar para a humanidade será uma recomposição do grande púbico com a ciência. Com a capacidade de aceitar fatos e explicações lógicas e metódicas, ao invés de simplesmente seguir discursos emotivos, mas vazios de significado. Esta não será a primeira vez que a humanidade terá saído da escuridão da ignorância para ser iluminada pela ciência, e quem sabe, possa não ser ainda a última. Mas se é para termos esperança em algo, que seja a de que após esta grande tempestade, a bonança nos chegue trazida nos braços da Ciência!


Outras publicações


A ciência do sabão!
Depois da tempestade, a ciência!
Ficção ou Realidade?