Covid-19: Mobilidade e Transmissão

Publicado por Julio Garcia em 10/04/2020

O Google lançou um websiteque agrega informações (anonimizadas) sobre a movimentação de pessoas por meio de diversos de seus produtos que utilizam dados georeferenciados, tais como o Google Maps, Waze, dentre outros. No site é possível acessar Relatórios de Mobilidade das Comunidades, que apontam para indicadores e tendências que podem servir de base a tomada de decisões pelas autoridades competentes no combate a COVID-19. É possível observar as tendências e movimentações de pessoas em diversos territórios e categorias de lugares, tais como comércio e recreação, supermercados e farmácias, parques, estações de trânsito, centros comerciais e áreas residenciais.

Os dados foram comparados com os valores médios correspondentes aos mesmos dias da semana durante as 5 semanas no período de 3 de Janeiro a 6 de Fevereiro de 2020. Nos quadros abaixo é possível comparar a diferença entre a mobilidade em lugares como restaurantes, padarias, shopping centers, parques, museus, cinemas (Retail & recreation).


O Estado do Paraná, no Brasil, apresenta redução média de 75% na movimentação de pessoas. No mesmo momento apresenta 252 casos confirmados.

Do outro lado, o Estado da Flórida, nos EUA apresenta redução média de 54%na movimentação de pessoas e 7.764 casos confirmados.

Data de referência: 02/04/2020, 15:00 (horário do Brasil).

Também é possível comparar os dados absolutos dos 26 Estados brasileiros e o Distrito Federal, com os 50 Estados Norte-Americanos e Washington D.C. Enquanto o Brasil conseguiu reduzir em 71% a circulação de pessoas, os Estados Unidos reduziram apenas 47%, e isto referente apenas aos últimos 3 a 5 dias. Ou seja, as notícias indicam que a circulação de pessoas nos Estados Unidos estava ainda maior nas últimas duas semanas, enquanto medidas de quarentena não foram aplicadas. (Update 05/06): Conforme bem apontado por André Teixeira existe um fator temporal que precisa ser levado em consideração, pois ele acelera a curva de crescimento de casos. Nos EUA a primeira morte ocorreu em 29 de fevereiro e no Brasil em 17 de março. Neste modelo de comparação o Brasil estava 3 vezes mais acelerado que os EUA após 17 dias da confirmação do primeiro caso com 363 mortes, enquanto os norte-americanos tinham no mesmo período apenas 110. Ao que tudo indica, estes dados apresentam relações importantes com os números de infectados e, consequentemente, (a partir de vários outros critérios de risco) também o de mortos.

Brasil – Redução de movimentação de 75% 6.836 casos confirmados e 241 mortos.

EUA – Redução de movimentação de 47% 213.600 casos confirmados e 4.793 mortos

Fonte: OMS.

Apesar das ressalvas quanto ao número de mortos, os números apontados pelos relatórios do Google auxiliam a compreender os efeitos da continuidade da mobilidade para o aumento do número de infectados, sendo de maior valia quando as comparações são feitas com os dados da mesma localidade. O que é possível se afirmar é que quanto mais efetiva for a quarentena menor a taxa de contaminação.

Outro é o debate que está sendo capitaneado por alguns setores para haver tolerância de algum nível de contaminação de pessoas e seus riscos decorrentes, para salvaguardar a economia e a circulação de dinheiro. Em um Estado Democrático de Direito qualquer tentativa de compatibilização entre interesses em “aparente” conflito passa necessariamente pelo respeito aos direitos fundamentais. E este debate deve ser feito em alto nível, evitando-se as ideologias e polarizações político-partidárias que invariavelmente geram vieses capazes de impedir a análise acurada da realidade.

Qualquer tentativa de compatibilização entre interesses em “aparente” conflito passa pelo respeito aos direitos fundamentais.

Entre o direito fundamental de livre iniciativa e o direito fundamental à vida, não há, a rigor, necessidade de maiores discussões. As tentativas de caracterizar o desemprego ou falência de empresas como causa equivalente para a mortandade de pessoas é uma falácia. O vírus tem alta letalidade demonstrada. Ataca pulmões e os destroem especialmente em pacientes vulneráveis ou debilitados e não tem poupado classes sociais ou faixas etárias. Mais do que isto, se espalha com tamanha velocidade que vem gerando o colapso dos sistemas públicos e privados de vários países. O desemprego e falências empresariais são resultados de problemas estruturais do Brasil (desde a ausência de infraestrutura, capital de investimento, qualificação da força de trabalho até a própria educação e qualificação também dos empreendedores), e afetam não apenas os empreendedores e investidores, mas também e principalmente os trabalhadores que têm sido considerados uma das primeiras despesas a serem “cortadas”. Mas existem infindáveis meios e recursos capazes de minimizar ou até impedir efeitos indiretos à saúde, segurança e a própria vida dos trabalhadores.

Em um artigo publicado na Forbes e que vale a leitura, Peter Georgescu destaca a relevância dos trabalhadores comuns para garantir o mínimo funcionamento e sobrevivência das sociedades durante esta crise provocada pela pandemia.

Os trabalhadores comuns são agora as pessoas de quem dependemos para sobreviver. Sem eles, não poderíamos nos alimentar ou receber outros suprimentos essenciais em nossas casas. Eles são as tropas de choque nesta guerra contra um inimigo invisível. A coragem, diligência e criatividade deles — no casos dos pequenos negócios que se adaptam a demanda e continuam servindo seus clientes — é o que manterá este país vivo, literalmente. (Peter Georgescu. Tradução livre)

Ao mesmo tempo, diversas empresas nos EUA (assim como vem ocorrendo no Brasil e mundo afora) assumiram fortemente a responsabilidade social, valendo a pena conhecer e copiar seus exemplos.

  • A Campbell ofereceu aos seus trabalhadores da linha de produçãoUS$2 adicionais por hora trabalhada, e supervisores da frente de trabalho um extra de US$100 para cada semana.
  • O CEO da Comcast e os diretores executivos estão doando seus salários para campanhas de auxílio social frente a COVID-19, e garantiram US$500 milhões para continuar a manter os salários e benefícios de todos os funcionários.
  • A Danone garantiu a manutenção dos contratos e salários de todos os seus 100.000 funcionários até 30 de junho, mais a garantia a todos de cobertura de saúde para a COVID-19, além de pagar bônus aos trabalhadores que precisaram permanecer no trabalho presencial.
  • A JetBlue está doando vôos gratuitos para trabalhadores da área de saúde se deslocarem para o Estado de Nova Iorque.
  • A Fundação MetLife comprometeuUS$25 milhões para auxiliar na resposta global a COVID-19, e um adicional deUS$1 milhão para os bancos de alimentos nos EUA para ajudar a combater a insegurança alimentar durante a crise.
  • A NVIDIA está concedendo livre acesso para pesquisadores ao software de sequenciamento genético para ajudar na luta contra a COVID-19.
  • A S&P Global aumentou sua cobertura de saúde para licenças de doença, garantindo o pagamento de salário aos funcionários que forem acometidos pela COVID-19 e estendeu o acesso a serviços de saúde mental.


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